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Entrevista com José Moreno (Jornal Sol)

JOSÉ Moreno, advogado e antigo assessor de Manuela Ferreira Leite no Ministério das Finanças, é, desde Setembro, o novo grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP) - a maçonaria regular que, só no último ano, ganhou 500 membros. Fundador da Loja Mercúrio, uma das mais mediáticas por contar com Isaltino Morais, tem como vices do seu cargo dois dirigentes activos do PS. Aos 58 anos, o mais novo dos grão-mestres diz-se preocupado com a falta de verdade dos políticos quanto à gravidade da crise que se vive no país e defende um governo de coligação.

Como novo grão-mestre pretende trazer algo de novo para a maçonaria regular portuguesa?

A maçonaria é uma instituição muito antiga. E cada grão-mestre não pode influir muito nisso. Mas devemos estar atentos à sociedade. O grão-mestre não é um ditador e deve interpretar o sentir dos seus irmãos. Mas gostaria que déssemos um bocadinho mais de abertura à sociedade civil.

 

 

De que forma?

Ainda tenho alguma dificuldade em saber como fazer essa abertura. Por vezes, fala-se da maçonaria não pelos melhores motivos, devido ao que a socie dade civil pensa de nós e à opinião que alguns inimigos ou ignorantes têm acerca de nós. Sou politicamente correcto e não sei se deva assumir uma postura como algumas figuras, que dizem coisas bombásticas. Aliás, em alguns países, como o Brasil, o grão-mestre é chamado de 'sereníssimo'. Mas sinto que é necessário falar de certas coisas.

Como por exemplo?

Neste momento, apesar de a democracia não estar em causa, em Portugal não se fala verdade. Há um desfasamento entre a classe política, e não apenas o Governo, e os cidadãos. Se houvesse mais verdade e transparência...

A que se refere quando diz que os políticos estão a mentir?

Os portugueses não têm noção da crise que atravessamos. Isso não está bem explicado.

Como é que a maçonaria pode contribuir para mudar isso?

Vivemos num Estado de Direito e a maçonaria respeita-o. Mas os maçons, individualmente, são pessoas que pugnam pela verdade nas suas actividades.
Um maçon, seja político ou tenha outra actividade, tem um compromisso com a verdade e transparência. Todos têm de saber que estamos a viver acima das nossas possibilidades e vamos ter de fazer alguns sacrifícios. Mas estou certo de que nos empenharemos todos muito mais, nos sacrifícios que nos vão pedir, se virmos os que nos dirigem a dar o exemplo. E não são apenas estes que têm de dizer a verdade: também nós, socie dade, temos de interiorizar os problemas.

É público que é do PSD. Acho que é o partido mais bem colocado para lidar com esta situação?

Não sei se o PSD é o partido melhor colocado... Mas, recordando as comemorações do 25 de Abril, os quatro Presidentes eleitos desde 1974 apelaram a um consenso mais alargado. Não sei se esse consenso será possível só com um partido. É que, para se tomarem medidas duras, é natural que haja reacções e que as forças sociais e as corporações se mobilizem.

A outra maçonaria existente em Portugal, o Grande Oriente Lusitano (GOL), tem maior ligação ao PS e a GLLP ao PSD?

Não nos metemos em assuntos partidários, nem os discutimos. Mas os meus dois vices-grão-mestres (Rui Paulo Figueiredo e Júlio Meirinhos) são dirigentes activos do PS.

A GLLP tem pessoas de todos os partidos?

Diria que a maçonaria regular tem gente de todos os quadrantes políticos e democráticos.

Qual é a diferença em relação ao GOL?

Não conheço o funcionamento do GOL. É uma instituição pela qual tenho grande respeito e admiração e onde tenho grandes amigos, nomeadamente o Grão-mestre. António Reis. Mas por exemplo, quase todos os maçons regulares estão ligados a associações de voluntariado, onde trabalham com a Igreja.

O GOL tinha mais membros. Hoje em dia estão próximos? Têm entrado muitas pessoas na GLLP?

Sim. Temos sido muito procurados e até nem têm entrado tantos como desejam.

E por que não entram?

Porque temos de ter preocupações de recrutamento. Há muita gente que nos procura por razões que não são as melhores.

Rejeitam muitos candidatos?

Sim. Rejeitamos muita gente.

O que procuram essas pessoas? A maçonaria é vista por muitos como uma associação que protege os seus membros e que serve para tráfico de influência.
Lamento que haja essa imagem. E, se há essa imagem pública - apesar de pensar que já houve mais do que hoje -, provavelmente algumas pessoas virão cá pensando que há essas influências e que vêm fazer negócios.

Como explica que alguém procura a maçonaria com esse fim?

Não se entra na maçonaria com facilidade. Embora, segundo me dizia há dias um dirigente político com responsabilidades, seja mais fácil às vezes entrar na maçonaria do que nos partidos. Mas não sei se é verdade.

Não é fácil entrar porquê?

Porque as pessoas têm de ser propostas. O 'padrinho' - ou seja, quem propõe
- deve escolher pessoas que comunguem dos nossos ideais. Depois ob servamos as pessoas, que são sujeitas a inquéritos. Além disso, para terem progressão, têm de dar provas do que são. E por fim há sanções, que podem chegar à expulsão.

É esse o risco que corre Isaltino Morais, devido ao processo que tem em tribunal?

Não falo em casos concretos. Não somos nem juízes nem polícias. Vivemos num Estado de Direito, onde um dos princípios-base é que ninguém pode ser condenado antes de um processo transitar em julgado.

Mas como lida com os casos em que há indícios em tribunal de que o maçon não teve um comportamento moral adequado?

Segundo os nossos juramentos, temos de cumprir as leis do Estado. Por isso, pessoas que têm condenações serão convidadas a sair; e se não o fizerem, nós temos mecanismos de não os ter cá.

Já houve expulsões?

Sim, já aconteceu. Por questões de tribunal e outras.

E há pessoas que desistem de ser Maçon?

Sim. Chegam e isto não é aquilo que pensavam.

Quantas pessoas entraram no último ano?

Provavelmente, entraram mais de 500 pessoas. Estamos em crescimento, até em número de lojas - há 75 lojas activas que vão iniciando maçons. Com mais lojas activas, há mais actividade de recrutamento.

O GOL terá dois mil membros. E vocês?

Devemos andar por esses números.

Qual é o perfil dos novos membros?

A maçonaria regular portuguesa é uma das mais novas do mundo. Em vez de serem reformados a vir para a maçonaria fazer filantropia, há gente da vida activa.

Há muitos jovens a entrar?

Há muitos jovens que estão a fazer os seus doutoramentos, jovens assistentes universitários e até alunos universitários.

Por que é importante para a maçonaria ter pessoas com cargos importantes?

Se um maçon desempenha um cargo de relevância, levará também valores da maçonaria para a sociedade. E, por outro lado, nós gostamos que os nossos irmãos estejam bem. Pretendemos ser uma elite ética e moral. Uma escola de valores.

Nas lojas, debate-se muito a crise e o estado do país?

Partidariamente nunca falamos. Discutimos os problemas que preocupam a sociedade e trazemos a eventos nossos figuras que não são maçons mas que têm destaque na sociedade.

Quem?

Desde dirigentes partidários a dirigentes religiosos.

Que dirigentes religiosos foram esses?

Temos tido conferências com bispos e de grande sucesso. Mas não revelo os nomes.

Recentemente, a GLLP convidou Pedro Passos Coelho e António José Seguro para um jantar debate, não foi?

Temos jantares. É normal. Fazemos isso no país todo.

Um dos princípios é a protecção dos irmãos. A todo o custo?

Naturalmente, se sou seu amigo e precisar da minha ajuda, eu ajudou-a. Da mesma forma que, se for minha amiga, também me ajuda. É apenas isto.